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           Comunicação não violenta: construção da excelência no papel das lideranças

Data: 30 setembro 2021 | Categoria: Pessoas
Foto da Clara, brainer que escreveu o artigo sobre comunicação não violenta.
           

Num mundo em que a tecnologia absorve e automatiza cada vez mais tarefas repetitivas, mais simples e de pouco esforço intelectual, sai na frente o profissional que investe em competências comportamentais. Assim, as soft skills já são vistas no mercado de trabalho do futuro, entre leas, resiliência, adaptabilidade, criatividade, inovação, empreendedorismo e, é claro, a comunicação.

E para aqueles que exercem um papel de liderança, ter a habilidade de comunicar-se de modo inteligente é crucial. Isto, para a obtenção de times mais engajados, além de propósitos e objetivos organizacionais melhor alinhados e excelência no exercício dessa liderança. Lembrando que liderança não tem a ver com nível hierárquico, mas sim com um talento que pode, e deve, ser aprendido e que precisa ser incrementado com uma boa comunicação.

Assim, a Comunicação Não Violenta (CNV) é uma abordagem de comunicação inteligente que vem sendo amplamente difundida. Isto, não só para ambientes corporativos, mas também no meio acadêmico, político, diplomático, bem como no âmbito pessoal (relacionamentos afetivos, entre amigos e familiares). Essa abordagem também é conhecida como Comunicação Empática, por ser capaz de estimular a empatia.

A seguir, entenda como a CVN surgiu e como aplicá-la na prática para exercer a liderança e alcançar a excelência nas organizações.

O que é e como surgiu a Comunicação Não Violenta (CNV)

O nome “Não Violenta” vem da ideia de que é uma linguagem do coração, de se ter uma nova visão de mundo, livre de rótulos e mais humana. Ainda, foi bastante inspirada na maneira de se comunicar do grande líder Gandhi. Surgiu a partir dos estudos do psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, no início dos anos 60, no auge dos conflitos de segregação racial nos EUA, quando atuava como orientador educacional em instituições de ensino.

O psicólogo começou a perceber que muitos conflitos entre as pessoas eram gerados pela forma como suas ideias eram expostas.  Muitas vezes, desconsiderando para quem a mensagem era dirigida e os efeitos que ela criava. Marshall apenas ressignificou o processo de comunicação, cujos conceitos já foram analisados há bastante tempo. Ainda segundo Marshall, a CNV compreende as habilidades de ouvir e falar, levando os indivíduos a se entregarem de coração. Dessa forma, permitindo maior conexão consigo e com os outros e desenvolvendo a compaixão entre todos.

Portanto, a Comunicação Não Violenta tem reais chances de florescer em ambientes acolhedores e cooperativos, em que a cultura estimule o respeito e a generosidade. Trazendo a reflexão ao mundo corporativo, quanto mais as lideranças interagem numa cultura que promove a competitividade, forte hierarquia, controle excessivo e busca por culpados, menos elas serão motivadas a praticarem a CNV e serem agentes de mudança em seus meios e com os times.

Dessa forma, o desafio da mudança se torna ainda maior. A CNV tem como base reformular a maneira como cada um se expressa e ouve os demais. É uma via de mão dupla, na qual expressamos honestamente (fala), tendo consciência do que é pensado, sentido e desejado e também recebemos com empatia (escuta ativa), dando atenção respeitosa ao outro. Sendo assim, a CNV coloca as necessidades suas e do outro no centro de toda a comunicação, mudando o enfoque nos relacionamentos pessoais e profissionais.

Principais componentes da CVN e como aplicá-la na prática

A Comunicação Não Violenta é formada por quatro componentes principais. Abaixo, confira cada um deles e como se aplicam na prática.

Observação (não é juízo de valor)

Observe de maneira descritiva o que realmente está acontecendo em determinada situação. O objetivo aqui é apenas compreender o que se gosta ou não diante do que aconteceu e no que o outro fez, sem julgamentos ou juízos de valor. Isso evita reações defensivas e cheias de culpa. Ainda, Marshall comenta que observação com avaliação é entendida como crítica.

CNV na prática

“Você é um mentiroso!” (forma inadequada)

“Você disse que me ajudaria com o relatório e não fez.” (prática da observação com uso da CNV).

Sentimento (não é opinião)

Como nos sentimos em relação ao que foi observado? Identifique esse sentimento e o nomeie (o que você sentiu? raiva? alegria? frustração? ficou chateado? – expresse-se). É preciso se permitir ser vulnerável para resolver conflitos e saber a diferença entre o que se sente e o que se interpreta ou pensa. Ainda, existe uma cultura geral de se achar que expressar sentimento é sinônimo de fraqueza. Porém, é justamente quando abordamos os sentimentos que a comunicação se aproxima e se humaniza de verdade.

CNV na prática

“Você nunca aparece nas happy hours. Você é muito antissocial!” (forma inadequada)

“Você só foi a 2 happy hours da equipe. Sinto falta da sua presença lá!” (o enunciado fala de como você se sente usando CNV).

Necessidade (diferente de estratégia)

Quais valores e desejos geraram esses sentimentos? Saiba identificar quais são as necessidades reais que estão ligadas ao que sentimos. Isto porque é preciso entender que ver nossos desejos serem atendidos é mais fácil quando expressamos nossos valores e necessidades, ao invés de estratégias de comunicação, muitas vezes cheias de julgamentos. Estas, servem apenas para classificar pessoas e comportamentos sob nossa própria ótica do que é melhor, sem respeitar a ótica do outro.

É mais fácil um líder engajar uma equipe num propósito quando ele e o time estão inseridos num ambiente que prega o respeito às necessidades humanas em suas comunicações, do que num ambiente em que se consegue o que se pede por meio de classificações entre certo e errado, mérito e punição, e em que prevalecem rótulos, críticas e coerções no processo de comunicação.

Quando se faz uma crítica ao outro, na verdade estamos fazendo uma alusão a uma necessidade nossa que ainda não foi atendida. Por isso que os conflitos aparecem. Portanto, ainda que o ambiente corporativo não esteja estimulando a Comunicação Não Violenta a acontecer, cabe a cada um de nós ser responsável por aquilo que sentimos. Se quisermos ser um agente de mudança, será necessário fazermos um exercício diário para nos transformarmos e contribuirmos para melhorias nos relacionamentos profissionais e pessoais.

CNV na prática

“Aquela atividade lá tá pronta? Isso tá demorando muito, não pode passar de amanhã!” (forma inadequada)

“Aquela atividade lá tá pronta? O cliente ligou e decidimos adiantar a entrega para amanhã.” (exposição da necessidade usando a CNV)

Pedido (diferente de exigência)

Peça o que se deseja de forma clara, concreta, específica e que de fato atenda à sua necessidade. A dica é afirmar o que se quer e não o que você não quer. Portanto, não se pode esperar que o outro adivinhe o que você quer, muito menos exigir de modo ameaçador o que se precisa. Isso afasta qualquer conexão genuína entre as pessoas.

CNV na prática

“Você sempre atrasa tudo. Pode parar de mandar os relatórios sempre atrasados?” (forma inadequada)

“Posso contar com envio dos relatórios deste mês na data combinada?” (enunciado vai direto ao que se quer pura e simples sem tom irônico e acusatório por meio da CNV).

Vale ressaltar que a prática da Comunicação Não Violenta estimula, antes de mais nada, a comunicação com nós mesmos e a autocompaixão. Dessa forma, ensina a possibilidade de saber receber a mensagem do outro com empatia e humildade, importante ao escutar feedbacks. Ainda, ensina a perdoar e aceitar que não somos perfeitos e erramos, permitindo-nos uma autoavaliação sem autoacusação e autossabotagem, conhecida como “síndrome do impostor. Por fim, a CNV faz com que entendamos que podemos escolher o que fazer por termos responsabilidades ao falar e agir.

CVN no dia a dia das lideranças

Aplicar a CVN na prática não é tão fácil quanto parece e requer treino no dia a dia para que saibamos ter inteligência emocional diante das adversidades. Da mesma forma, para que saibamos controlar a raiva, respirar fundo, identificar os pensamentos julgadores e pensar com clareza no que está por trás dos sentimentos que nos deixam desconfortáveis. Quais foram as necessidades não atendidas que criaram o conflito ou um ruído na comunicação com outras pessoas?

A Comunicação Não Violenta é uma forte aliada para a obtenção da excelência na liderança, uma vez que proporciona ao líder conhecer melhor a si mesmo e a seus liderados, além de ajudar a alinhar expectativas e desejos entre todos com maestria. Também, auxilia no processo de dar e receber feedbacks melhores e que contribuirão para o real desenvolvimento individual, além de promover transparência, compreensão, engajamento e motivação.

A CNV também ajuda a intermediar negociações, resolver disputas e conflitos que acontecem dentro dos times, com os clientes e demais stakeholders. Portanto, contribui enormemente para um bom clima organizacional, permeado por relações mais profundas, afetivas e eficazes.

E você, já conhecia a Comunicação Não Violenta? Topa se desafiar a praticá-la em seu dia a dia a partir de agora?

Por Clara Azevedo, Scrum Master no Brain.

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REDAÇÃO BRAIN

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Márcio França

Parabéns pelo texto. Muito didático e assertivo. 👏👏👏
Tema de extrema importância na gestão de pessoas e, consecutivamente, de resultados.

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