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           Sub-representação feminina é realidade amarga que demanda ação

Data: 27 outubro 2021 | Categoria: Pessoas
Foto da Zaima Milazzo, presidente do Brain e autora do artigo sobre sub-representação feminina
           

Apesar de serem quase metade (45%) do total de trabalhadores formais no Brasil, as mulheres representam apenas 20% dos empregos especializados em Ciência e Tecnologia no país, segundo pesquisa elaborada pela CIPPEC que demonstra a sub-representação feminina no setor. Outro estudo divulgado neste ano pelo Boston Consulting Group (BCG) apontou que as mulheres ocupam somente 9% dos cargos de CEOs em empresas de tecnologia em todo o mundo.

Além disso, cerca de metade das entrevistadas disse enfrentar obstáculos onde trabalha – o dobro do número de participantes em cargos não-STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), o que demonstra um claro preconceito com o público feminino nas áreas Exatas.

A sub-representação feminina no universo da tecnologia e da inovação, e das Ciências Exatas em geral, é uma realidade incontestável. Esse fato, porém, não tem nenhuma relação com a sua capacidade intelectual, mesmo que ainda hoje persista a ideia de que meninas não tenham uma habilidade natural para essas áreas, e sim para Humanas.

Esse mito também já foi comprovadamente descontruído por pesquisas como da Universidade Carnegie Mellon (EUA), que confirmou que não existe diferença entre o desempenho de garotos e garotas no aprendizado e no exercício da matemática. As imagens neurais das crianças foram comparadas e testes foram aplicados, não demonstrando nenhuma diferenciação relevante no desenvolvimento cerebral de ambos os sexos.

Mas, então, o que as impede? Essa é uma questão que me intriga muito desde que me tornei uma liderança feminina inserida nesse contexto tão desigual. E a resposta para isso é que há preconceitos e crenças limitantes que tiram das mulheres desde cedo o sonho de seguir com carreiras em Exatas.

Por que há sub-representação feminina em cargos STEM?

A razão da baixa representatividade de mulheres nessas áreas de conhecimento, segundo a própria UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), é justamente a criação de estereótipos de desigualdade de gênero. Como mãe de um menino e uma menina, no passado, eu mesma já me peguei incentivando suas brincadeiras de maneiras distintas e revi meu comportamento. Possivelmente, reproduzi a criação que recebi na minha infância, daí a importância de estarmos atentos e quebrarmos esse ciclo, mudando a forma como incentivamos o potencial e as habilidades das nossas meninas.

Felizmente, no Brain, centro de inovação do qual sou presidente, o problema da desigualdade de gênero que vemos no mundo externo não tem se repetido. Com uma líder mulher, foi natural que alcançássemos uma liderança com equidade no sexo feminino (50%) e 44% no quadro geral. No entanto, ainda temos muito a avançar em outros aspectos da diversidade – e é por isso que já inclusive testamos uma ferramenta de recrutamento às cegas no programa de estágio, modelo que deve amadurecer para outros tipos de contratações. Para evoluir ainda mais nesse caminho, contamos também com o suporte do programa Algar Sem Barreiras, iniciativa do Grupo Algar que busca promover a inclusão em cinco frentes: gênero, etnia, LGBTI+, gerações e PCD.

Porém, apesar de ser um ponto fundamental na jornada rumo à equidade, a porta de entrada está longe de ser o único problema. Voltando para a questão feminina, quando as mulheres superam inúmeros preconceitos e finalmente chegam lá, elas enfrentam uma série de outros desafios. Segundo relatório do BCG em parceria com o Fórum das Mulheres para a Economia e Sociedade, as mulheres sofrem limitações em todos os estágios do crescimento profissional, desde o recrutamento, passando pela retenção e promoção, até chegar aos cargos de liderança.

No universo da inovação, mais um estudo do BCG, de 2018, escancarou a realidade de que startups de mulheres recebem menos investimentos, apesar de gerarem mais receita. Ao analisar 350 empresas que foram aceleradas em programas do MassChallenge, observou-se que as empresas com fundadoras do sexo feminino receberam, em média, US$ 935 mil em investimentos. Enquanto isso, as fundadas por homens ganharam US$ 2,1 milhões, em média, em aportes de capital de risco. No longo prazo, porém, elas geraram maior receita, apesar do baixo investimento inicial. As companhias cofundadas por mulheres alcançaram 10% mais em renda acumulada num período de cinco anos. A cada US$ 1 investido, as mulheres geraram US$ 0,78, enquanto os homens menos da metade (US$ 0,31).

Como mudar mudar essa realidade

Todos esses números deixam claro de que o problema da sub-representação feminina é profundo e complexo. Para solucioná-lo, são necessárias ações em inúmeras frentes, com políticas formais e compromissos na busca pela inclusão tomados pelas empresas e por todos os atores do ecossistema de inovação.

Precisamos batalhar por uma mudança cultural que começa desde a infância, na criação de nossos filhos; por iniciativas que estimulem o acesso das mulheres em cursos universitários de Exatas; por eliminar a discriminação de gênero na hora da contratação e definição de promoções; por programas de mentoria e capacitação voltados especificamente para o público feminino; pela equidade de aportes em startups fundadas por mulheres; e por condições que permitam que, uma vez inseridas, elas tenham condições favoráveis para que permaneçam e cresçam, o que inclui um ambiente de trabalho apropriado, que as valorize e apoie, principalmente na maternidade.

A agenda é vasta, mas, sem tudo isso, dificilmente mudaremos essas estatísticas e, assim, todos sairemos perdendo, não somente as mulheres – afinal, a diversidade é comprovadamente essencial para estimular a inovação. Com diferentes pontos de vista, enxergamos mais longe.

Por Zaima Milazzo, Presidente do Brain.
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REDAÇÃO BRAIN

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